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Mensagem por Todoroki Ria Ter 29 Set 2020 - 21:54




TODOROKI, Ria - História Parte I

“Mamãe sempre me disse que eu era especial.

Por algumas razões que não compreendia muito bem na época eu acreditei nessas palavras, afinal as mães não costumam mentir para seus filhos. Não que eu esteja reclamando do que ganhei, isso nunca: vovó sempre foi muito boa para comigo, mas o meu “especial” é bem diferentes de muitos que existem por ai.

De qualquer forma, eu...”

— Todoroki-sama? — a voz de Yayorozu fez com que eu voltasse de meus pensamentos, minha mão parando de forma automática para que pudesse prestar atenção na vice-representante de classe. As íris castanhas da garota me encaravam com repreensão, afinal eu era a única que continuava a escrever mesmo com Iida-kun falando à frente de todos.

— Perdão. — larguei minha lapiseira e voltei os olhos na direção do quadro, vendo que o garoto lá na frente começara a explicar algumas regras da competição entre turmas que haveria na semana que vem.

Suspirei pesadamente, já que não estaria na linha de frente e sim no “Castelo de Izanagi-sama”, sendo protegida por meus colegas de classe. Apesar do colégio UA ser tradicional em Tóquio, não era qualquer pessoa que poderia prestar o vestibulinho para entrar ali: era apenas para descendentes dos deuses xintoístas, e aqueles que não possuíam nenhuma descendência eram recusados de imediato por uma razão qualquer. Pois é, maior trampo, não?

— Então todos de acordo de que Todoroki-sama deverá ser a princesa? — Yayorozu perguntou e eu escutei um “Sim” coletivo. Suspirei em derrota, afinal queria muito ir para a linha de frente para poder, finalmente, esmurrar a cara do Monoma da sala 3B. Infelizmente aquele desejo teria que ficar por mais um tempo dentro do meu coração. — Todoroki-sama, tudo bem por você?

— Pode ser. — acabei por murmurar, por fim. Seria trabalhoso demais ter que discutir com a turma toda para que, no final, viessem com o argumento de que “eu era a única e mais preciosa neta de Susanoo-sama” e que não deveria sofrer nenhum tipo de arranhão possível.

Soltei um novo suspiro após nossa organização e planejamento acabar, coisa que levou uma hora após a aula de Aizawa-sensei que, por sinal, dormia no canto da classe enrolado em uma manta amarela. Os cabelos escuros caíam sobre os olhos cansados envoltos em manchas arroxeadas grandes demais para quem passou apenas uma noite em claro. Me aproximei e cutuquei suas bochechas após ver que sim, a grande maioria dos meus colegas já havia saído.

O homem dormia tão profundamente que nem mesmo se mexeu. Sorri comigo mesma e o deixei quando Iida-kun tocou meu ombro e disse que se responsabilizaria pelo sensei. Afirmei com a cabeça e, após me despedir do representante de classe, me dirigi para a saída a passos largos, passando pelos corredores iluminados pelo sol do fim da tarde.

Dos três principais deuses da mitologia xintoísta, apenas Susanoo-sama teve relação com uma mortal. Disso nasceu uma menina, Todoroki Hari e bem... Mamãe é a única filha do deus do mar e das tormentas, assim como a única sobrinha de Amaterasu-sama e Tsukuyomi-sama. Resumindo era como se eu fosse uma espécie de princesa para qualquer pessoa naquela escola.

Ninguém queria atrair a ira daqueles três deuses.

— Isso é idiotice. — murmurei emburrada, fazendo um biquinho de descontentamento. Parei por alguns instantes próximo à janela que dava para o penhasco, observando o oceano e sua vastidão, me perguntando se algum dia eu conheceria meu avô materno.

Pois é, o desgraçado nunca deu as caras, assim como meu pai. Mamãe e eu vivíamos na casa principal no gigantesco território pertencente à família no centro de Tóquio. A empresa a qual era dona havia melhorado e crescido no mercado tecnológico e balístico. CEO da Todoroki & Kuran, dona de quase 90% das ações operantes no mercado dentro da organização, minha mãe era quase um tanque de guerra capaz de qualquer coisa para me proteger e proteger o que construiu.

Quando Kuran Haruka-san quase lhe deu o tombo em patrimônio ela lhe ofereceu um acordo irrecusável para não ser preso pelo resto da vida por roubo, receptação, sequestro e tentativa de homicídio. Sim, isso mesmo que leram: eu devia ter uns dez anos na época, mas me lembro muito bem do carro preto parando ao meu lado após a saída da escola, do homem grande que me levou embora e de quase ter morrido queimada em um incêndio criminoso na zona portuária da capital.

Desde aquele dia eu nunca mais fui desacompanhada para o colégio.

Desci as escadas que davam para o primeiro andar – nossa sala de aula ficava no segundo – e dei de cara com Bakugou, que me encarava com a expressão zangada de sempre. O loiro era descendente de Kagutsuchi, o deus do fogo que não era muito bem visto entre todos já que o mesmo havia matado Izanami-sama no parto, e a personalidade explosiva dele sempre afastava quem não o conhecia de verdade.

Nossa turma já havia se acostumado e, sinceramente, todos gostavam muito dele. Tanto que possuía até mesmo um melhor amigo que, por sinal, estava ao seu lado. Kirishima-kun era realmente um anjo em forma de gente, mas infelizmente muitas pessoas tentavam não cruzar seu caminho.

Kirishima Eijirou era descendente de Binbogami, o deus da pobreza.

— Precisa de algo, Bakugou? — perguntei sem interesse real, pois sabia o que o loiro faria: brigar comigo por ser tão passional com certas decisões que sabia que não me contentavam. Dei de ombros quando o garoto apenas socou a parede ao lado de minha cabeça e virou as costas, indo na direção da sala de música onde provavelmente a banda a qual fazia parte estaria esperando.

Vi Kirishima-kun suspirar.

— Sinto muito por isso. — falou com sinceridade, mantendo uma distância segura de pelo menos dois metros de mim. Me permiti abrir um sorriso caloroso para o ruivo.

— Está tudo bem. Não é como se eu não soubesse o que Bakugou desejaria me falar. — ri sem graça enquanto coçava a nuca. — Mas também não é como se eu simplesmente pudesse ir para a linha de frente.

— Não mesmo. A missão que termos éa de proteger o legado dos deuses maiores. Ser bisneta direta de Izanagi-sama e Izanami-sama é quase uma honra, não?

— Eu diria que é mais como um tormento. — encostei-me à parede com as costas, cruzando os braços na altura do peito enquanto soltava mais um suspiro. Só naquele dia foram mais de cinco suspiros soltados, mas quem poderia me culpar? Quando a vida pega para te foder, ela vem sem te preparar antes e sem nem pagar um jantar.

— Não deveria pensar assim. — o ruivo continuou, tentando me alegrar. A energia positiva de Kirishima não condizia com todo o azar e infortúnio que trazia com quem ficasse a menos de meio metro de si ou o tocasse.

Encostar em qualquer parte do corpo do garoto era pedir para ter azar por uma semana.

— Deveria ficar feliz, Ria. — de todas as pessoas na turma, Eijirou era o único que me chamava pelo nome sem hesitar e isso sempre me fazia sorrir. Eu não era uma princesa e nem mesmo uma boneca de porcelana para me colocarem no pedestal eu estava naquela escola, então toda vez que o garoto à minha frente me tratava normalmente eu quase surtava de felicidade.

Acenando após se despedir, vi o rapaz correr na direção que Bakugou havia ido anteriormente. Fiquei ali por mais alguns segundos até resolver que era hora de tomar meu rumo para a saída, uma vez que não participava de nenhum clube em específico, embora tenham convidado.

Era deveras trabalhoso ter que lidar com muitas coisas ao mesmo tempo, então preferime abster de quaisquer compromissos que não se tratasse de nossa família (ou do meu trabalho secreto), afinal o clã dos Todoroki era de uma antiga linhagem que cultuava os deuses há gerações, então era mais do que minha responsabilidade as danças do templo da casa principal. Não obstante, como única neta de Susanoo-sama, sempre acabava me envolvendo em assuntos os quais me eram desconcertantes.

E dançar o Kagura era um deles.

Saí do prédio do colégio e, logo no portão, havia três pessoas de terno preto me esperando. Uma delas era TodorokiEnji, meu tio e pai do Shouto, que por sinal era meu colega de classe.

Minha avó teve dois filhos: mamãe e tio Enji, que não era filho de Susanoo e sim de Kagutsuchi-sama, o deus do fogo e, na preferência de herdeiro do clã – o próximo líder, em outras palavras -, Hari era a primeira da fila. Graças aos deuses meu tio nunca se importou com isso, ele mesmo dizia que preferia manter-me segura do que arriscar uma briga de frente com a minha mãe.

Não que não tenha tentado antes: se quisesse ter o direito de ser o próximo líder, titio deveria derrotar Hari em um combate. Bem, não preciso nem declarar quem foi o grande vencedor da “Luta do Século” entre os irmãos prodígio. Naquele dia mamãe cobriu Enji na porrada sem dó nem piedade mesmo sendo meio metro menor do que ele.

— Tio Enji. — sorri para o mais velho, que retribuiu o sorriso. Era satisfatório observar o rosto dele, afinal mesmo com a cicatriz que ganhou durante a luta com mamãe, titio era um homem muito bonito. Cabelos avermelhados como fogo e íris castanhas tão intensas como a mais potente chama, Todoroki Enji passava uma aura assustadora para quem não o conhecia.

Além de Shouto, que possui a minha idade, ele tem mais três filhos. Touya – ou Dabi, como a maioria o chama – é o mais velho, e é formado em direito; Fuyumi é a segunda filha, formada em pedagogia; e Natsuo é o terceiro filho, que está cursando administração. Rei, sua esposa, é uma mulher gentil que sempre faz biscoitos para mim e, todos os sábados, pede para que levem até minha casa bolo de morango com leite.

Tia Rei é a melhor!

— Olá, garotinha. Pronta para ir para casa? — ele perguntou após me fazer um cafuné. Afirmei com a cabeça. — Onde está o Shouto? Pensei que o clube não fosse ter atividades hoje.

— Shocchan disse que tinha assuntos a tratar com Midoriya-kun. — respondi enquanto esperava que Toshinori-san abrisse a porta do carro. Adentrei logo após meu tio, ficando no banco do meio.

Toshinori Yagi-san era o outro dos meus acompanhantes. Um homem alto e loiro, com olhos claros e pinta de estrangeiro, estava como segurança de mamãe antes dela o designar para mim. Sua família serve a nossa há gerações, como se fosse um dever passado de pai para filho. Eu o conheço desde pirralha, então sei que posso confiar minha vida a ele sem hesitar. Sem contar que sua personalidade cativante o fazia ser uma excelente companhia para passar os dias de tédio.

Quando desejava ir ao fliperama, geralmente era Yagi-san que me acompanhava.

No volante, e não menos importante, estava a única mulher daquele trio. Usagiyama Rumi era, de longe, a minha pessoa favorita na face da Terra: inteligente, simpática e quebradora de narizes alheios, Mirko – como gostava de ser chamada – sempre fazia tudo que eu queria, desde ir para balada comigo até me levar para comprar guloseimas ou simplesmente visitar algum lugar que eu queria muito ir.

Sua marca registrada é sua pele morena e seus cabelos platinados, que a destacam de uma forma belíssima. Descendente direta de Bishamonten, o deus da guerra, é forte e destemida e sempre tento me espelhar nela em várias coisas para poder ser uma boa pessoa. Menos a parte de quebrar narizes, como ela fez com Takami Keigo-san durante uma prática matinal.

— Tenho certeza de que vai apresentar um excelente Kagura, Ria-hime. — Mirko falou enquanto me observava pelo retrovisor. Dei um sorriso para ela enquanto levava ambas as mãos para trás da orelha, massageando o local.

— Só é um saco ter que usar a coroinha. — resmunguei com mau humor, arrancando uma risadinha da mulher e uma gargalhada de Toshinori-san. Tio Enji continuava sério como sempre ficava, atento ao trânsito enquanto parecia observar cada milímetro quadrado que podia captar com seus olhos.

Voltei meus pensamentos para o Kagura, afinal aquele era especial e, por isso, minha dança tinha que ser perfeita. Seria uma tarefa fácil para mim, embora eu esteja torcendo muito para não cair durante a apresentação, já que tinha certeza de que se falhasse, mamãe me mataria.

— Além disso, é um Kagura importante, já que estará perante os deuses e outras famílias importantes, que poderão se prontificar para toma-la como noiva. — Mirko continuou com animação, e isso sim me fez murchar de vez. Afundei no banco do meio sem ânimo nenhum para continuar a conversa, encolhendo os ombros enquanto abraçava os joelhos e escondia meu rosto em nervosismo.

Certo, talvez eu deva explicar essa parte.

Desde os tempos antigos, os Todoroki são servos dos deuses japoneses. Assim sendo, de tempos em tempos, um membro da família se casa, preferencialmente, com um deus para trazer fortuna, sorte e prosperidade para o clã. Isso mesmo, apenas para o clã.

A noiva ou o noivo sofre com as consequências disso. Os deuses se fortificam com nossas adorações e crenças e, não muito distante disso, se fortalecem com nossas energias. Aqueles que se casam com uma divindade têm suas energias sugadas pelo mesmo, ou seja, ficam mais fracos, suscetíveis a doenças e sua vida é encurtada devido a esses fatores.

E adivinhem quem foi a noiva sortuda?

— Não quero me casar com um deus. Quero viver mais de trinta anos. — sussurrei, mordendo o lábio inferior em hesitação e nervosismo. Senti uma mão em minhas costas me fazendo carinho, como se me consolasse sobre o destino horroroso que me aguardava.

Bem, era minha responsabilidade afinal de contas.

****************

O caminho até nossa casa foi deveras tranquilo, e tudo que eu queria era finalmente tomar um banho e continuar meu “trabalho”, já que o prazo final estava chegando. Certo, eu devo ter comentado a respeito do meu trabalho secreto antes, embora não tenha dito exatamente o que é: sou uma mangaká e trabalho sob o pseudônimo de Kurumi Ikky. Meu estilo de história é o que as pessoas chamam de BL, ou Boys Love, ou seja, histórias de relacionamentos entre garotos, e minha obra Honey, Honey, Aishiteru está em terceiro lugar no “Top 5” de leituras.

Vou te contar, concorrer com as coreanas não é fácil.

Adentramos pelo enorme portão de madeira e fizemos o caminho até a recepção principal, onde já havia pelo menos vinte funcionários nossos, dez de cada lado da porta de entrada da mansão, esperando por mim. Assim que Toshinori-san abriu a porta, saiu do carro e me ofereceu a mão para descer todos se curvaram.

— Seja bem vinda de volta, Ria-sama. — o coro ensaiado perfeitamente soou em meus ouvidos enquanto eu apenas soltava um suspiro pesado. Pelo menos não me chamaram de princesa.

— Estou em casa. — respondi e me pus a andar na direção de um velho senhor que aguardava em pé na porta. Os cabelos grisalhos demonstravam que já havia chego à terceira idade, o corpo alto e esguio somente deixava-o mais elegante com o fraque. — Tanaka-san, minha mãe já chegou?

— Sim, Ria-sama. Por gentileza, me acompanhe. — o tom de voz do senhor deixava claro que havia alguma coisa errada ali, então o segui. Caminhar pelo corredor bem iluminado em direção à biblioteca me deixou apreensiva pela primeira vez em anos, afinal a sensação de que as coisas iriam ladeira abaixo começou a pairar em volta do meu coração.

Será que algum deus havia demonstrado seu interesse em mim e veio conversar com mamãe a respeito? Balancei a cabeça discretamente, passando ambas as mãos em meu uniforme para alisá-lo e me deixar mais apresentável, então passei os dedos por entre meus cabelos e desfiz alguns nós causados pela educação física de mais cedo.

As grandes janelas que haviam ao longo do corredor me mostravam que os últimos vestígios do dia estavam, finalmente, indo embora, e tão logo Tsukuyomi-sama entraria em cena. A cor alaranjada do crepúsculo sempre me dava a sensação de paz, mas naquela dia em específico eu achei que fosse vomitar ao dar adeus à Amaterasu-sama. Respirei fundo pelo nariz e soltei pela boca.

— Chegamos. — Tanaka-san sussurrou para mim e então bateu à porta. Se anunciando e me anunciando logo em seguida, para somente então arrastar a madeira para dentro e me dar passagem. Respirei fundo e adentrei a biblioteca, logo vendo minha mãe e dois homens sentados nas poltronas vermelhas em frente à lareira. Era impossível não reconhecer Kanda Masamune e seu filho, KandaYuu, descendentes de Ukemochi-sama.

— Ria, aproxime-se minha filha. — mamãe falou e eu obedeci, indo em direção a ela e, após deixar minha bolsa da escola sobre a poltrona, curvei-me para os convidados, que ficaram de pé e repetiram meu gesto. Sentei logo em seguida, meus olhos acompanhando cada movimento de Yuu com cuidado e de forma minuciosa.

Não vou mentir, aquele garoto era lindo: a pele pálida contrastava com os longos cabelos escuros, os olhos de um breu tão intenso que, confesso, tinha medo de me perder neles. Alto, inteligente e porte atlético, o único defeito do herdeiro dos Kanda era ser tão rabugento quanto um ojissan com mais de 80 anos.

— É sempre um prazer revê-la, Ria. — Masamune-san sorriu gentilmente, me fazendo retribuir o gesto com sinceridade. Aquele homem era um antigo amigo de mamãe, da época do ginasial, e hoje era dono de uma grande empresa de cosméticos junto da esposa, Mayumi-san. Além de Yuu, eles tinham uma filha mais velha chamada Sakura, que estuda Direito na Inglaterra.

— O prazer é meu, Masamune-san. — respondi enquanto aguardava mamãe se pronunciar sobre os motivos que levaram aquele homem e seu filho a irem até em casa, quando podiam tratar de negócios no escritório. Suspirei após mais alguns minutos de conversa entre eles por, finalmente, saber os por quês.

Masamune-san estava ali para colocar Yuu na fila de pretendentes.

********************


— Me deixa em paz, Monoma. — falei pela zilionésima vez para o loiro da turma 3B, massageando minhas têmporas com força em excesso.

Era hora do almoço e eu havia ido até o pátio sozinha, pois precisava de espaço, precisava de ar e não estava a fim de escutar os lamentos de Uraraka-san sobre o fato de que, finalmente, Shouto havia pedido Midoriya-kun em namoro. Minha amiga era apaixonada por Izuku desde que o conheceu há dois anos, mas nunca teve coragem para se confessar e bem... O resultado da demora está ai.

Porém minha fuga resultou no encontro com Monoma da turma 3B, o que era pior do que encontrar uma roda de yankees em um beco escuro, já que o infeliz conseguia ser tão gente boa quanto Sangwoo de Killing Stalking. Certo, talvez eu tenha exagerado, até também por que nunca vi o loiro quebrar as pernas de alguém antes com um taco de baseball.

— Por que, senhorita dos mares? — o loiro debochou enquanto me seguia até próximo ao penhasco pelo caminho de cerejeiras. Não era a época, então não havia flores, mas os vestígios deixados para trás ainda davam beleza àquele lugar. O sol acima de nossas cabeças também não estava forte, mas eu desejava, do fundo do meu coração, que Amaterasu-sama queimasse aquele garoto até os ossos. — Só por que tentaram te afogar na natação?

— Quem será que tentou, não é? — falei com ironia, voltando meu corpo na direção de Monoma e erguendo uma sobrancelha.

Recapitulando o incidente da educação física de hoje: a turma A e a turma B tiveram esse tempo juntos, pois alguém teve a brilhante ideia de fazer isso. O problema é que tivemos natação, e eu não sei nadar, o que é bem irônico considerando o fato de que meu avô é o deus do mar. Então o senhor loiro à minha frente simplesmente me jogou na piscina enquanto dizia que eu deveria ser a primeira.

Se não fosse por Sero-kun, que estava mais próximo e pulou com agilidade na piscina para me tirar, eu teria me afogado.

— Ei, eu só quis lhe dar uma mãozinha. — erguendo ambos os braços, um dos descendentes de Fukurokuju-sama fez biquinho enquanto falava, me fazendo revirar os olhos em desgosto. Monoma era um garoto extremamente difícil de lidar, uma vez que era quase impossível saber o que estava pensando, além do filho de uma boa mãe ser extremamente inteligente.

Dava meus créditos a ele quanto a isso.

— Ei, se não quiser virar churrasco sai da frente, porra. — a voz de Bakugou soou em um ponto atrás do garoto à minha frente, me fazendo olhar para o filho do deus do fogo por cima dos ombros de Monoma. O estudante da turma B soltou uma risadinha de deboche antes de se virar para meu colega de classe. — ‘Tá rindo do que, seu puto? Quer levar outra na fuça?

Reprimi uma risadinha, lembrando do que aconteceu na aula: depois que me empurrou na piscina, Bakugou acertou um soco bem dado no nariz do engomadinho, o fazendo cair sentado no chão. A expressão do garoto foi de deboche para apreensão e, após abrir a boca pelo menos três vezes, deu as costas e saiu dali.

Respirei fundo pelo nariz e soltei pela boca, sentando-me na grama após retirar meu terninho. O suéter ainda estava sendo usado junto ao uniforme mesmo no verão, o símbolo do colégio bordado acima do peito mostrava a classe a qual eu pertencia: UA com um 3A bordado logo abaixo. O bege contrastava bem com o preto da saia e o vermelho da gravata, e o broche dourado com o símbolo de Susanoo na gola de minha camisa social de linho branco finalizava meu uniforme escolar.

Katsuki sentou-se à minha frente, a expressão carrancuda se fazendo presente enquanto parecia pensar em algo para falar. Abanei a mão como quem diz “vá em frente” e tão logo ele começou a resmungar.

— Mas que cacete, garota. Já não falei para falar comigo quando algo te incomodar? — soltou com raiva, chamuscando um pouco da grama ao seu redor. Suspirei pesadamente e então olhei para ele, abrindo um sorriso mínimo.

— Apareceram mais família interessadas no casamento. — falei por fim, após alguns minutos de silêncio. — Além dos Kanda, os Akashi e os Kurosaki se manifestaram. Mamãe também recebeu cartas dos Ishida, dos Midorima e dos Bookman. Não sei o que eu faço, por que a prioridade será dos deuses, mas se nenhum deles se interessar, os descendentes entram na prioridade.

— Que tal só não fazer nada? Recuse, se for o caso. — Bakugou deu de ombros e eu neguei com a cabeça.

— Não é tão simples quanto você faz parecer, Katsuki. — falei com tristeza. — O Kagura é amanhã, e meu destino está selado desde o dia em que nasci. Embora seja algo que vai me deixar infeliz, não é como se eu pudesse simplesmente dizer que não quero.

— É isso que eu odeio em você. — ele soltou, me surpreendendo com as palavras repletas de raiva. Bakugou sempre andava em “modo fúria”, então era difícil saber quando usava sua raiva no modo sério ou apenas para esconder que era um tsundere, mas ali, e naquela hora, eu senti que sua raiva era real. Estava furioso de verdade. — Sempre faz o que planejam para você, mesmo que te deixe infeliz. Sua vida é só sua, porra! Faça alguma coisa se não deseja algo! Que merda de destino o que, ‘tá louca garota?

Encolhi os ombros e desviei meu olhar do dele vendo, pelo canto dos olhos, Katsuki levantar e sair pisando duro, queimando a grama debaixo de seus pés enquanto a longas passadas ia em direção ao colégio novamente. Nunca negaria que meu amigo estava certo, por que eu sabia melhor do que ninguém que sim, ele tinha razão. Mas, por mais que eu dissesse para minha mãe que não desejava me casar, seria inútil.

Tradição e honra regiam os Todoroki desde os tempos mitológicos e não isso não seria mudado apenas por dizer um “não quero”. Muitas coisas estavam em jogo, como a prosperidade do clã – que não era pequeno, por sinal – e todo o prestígio que havíamos conseguido ao longo do tempo, afinal cair na graça dos deuses demanda muito mais do que dedicação.

Eu já tinha a sorte de poder estudar fora de casa!

Mordi o lábio inferior e abracei as pernas, deitando a cabeça sobre os joelhos e fechando os olhos ao sentir a brisa morna passar por mim. Os raios de sol pareciam acariciar minha pele, como se Amaterasu-sama estivesse dizendo que estava tudo bem, mas meu coração sabia que não estava. Senti os olhos marejarem enquanto só conseguia pensar que sim, era injusto!

Injusto, injusto, injusto!

Não queria nada daquilo, não desejava ser neta de Susanoo-sama, não queria ser chamada de “senhorita” ou de “princesa”, não queria ser a única descendente de um dos três deuses maiores e, acima de tudo, não desejava me casar. Queria uma vida longa, queria poder me formar como todos os outros, ir para uma boa faculdade de virar uma boa psiquiatra e me casar com quem eu amo.

Comecei a chorar como nunca havia chorado antes.

— Vi Katsuki sair daqui furioso. Pensei que fosse me queimar. — levantei a cabeça repentinamente, secando as lágrimas com as costas das mãos com força desnecessária ao ouvir a voz de Shouto. — Ria, o que houve? — o vi se desesperar ao se ajoelhar ao meu lado, me abraçando com carinho. — Aquele idiota fez alguma coisa?

Neguei com a cabeça e apenas me apertei contra o corpo quente de meu primo, que me deixou ficar ali até me acalmar. Felizmente ele não disse nada durante todo o tempo, o que foi muito bom, pois a última coisa que eu precisava no momento era de palavras de consolo.

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Minha roupa incomodava um pouco, confesso.

O Kosode branco era mais longo do que deveria e tudo que eu desejava era não tropeçar e cair, ou derrubar o sino ou o leque. Pelo menos meu Hakama estava na medida, o laranja escuro se assemelhava ao vermelho, e esse tom era o semelhante ao das minhas bochechas quando me observei no espelho do quarto onde esperava.

Havia muita gente lá fora e eu me sentia mais nervosa do que o habitual. Bem, aquele Kagura era o mais importante do clã e de forma alguma podia falhar, então talvez fosse isso que estava me deixando com o coração a mil. Ai deuses, eu queria chorar.

— Não se pressione demais, sabe? — quase berrei de susto quando senti uma mão em meu ombro, dando um pulo que certeza que me levaria para as Olimpíadas. Ao meu lado havia uma mulher alta, com longos cabelos negros como a noite, mas aura tão brilhante quanto o próprio sol. O Kimono branco tinha detalhes em vermelho em formato de espirais, além de alguns sóis desenhados na bainha.

Era bem óbvio quem era aquela mulher, então sem rodeios me curvei em respeito à deusa do sol.

— Amaterasu-sama. — falei com formalidade, fazendo a mulher soltar uma risadinha.

— Endireite-se, minha amada neta. — a deusa falou, então fiz o que havia me dito. Mesmo que ela e Tsukuyomi-sama fossem meus tios-avós, ambos me chamavam de neta, e eu amava ouvir essa palavra saindo dos lábios suaves dela, mesmo que tivessem sido poucas vezes, afinal é extremamente raro a divindade descer de Takamagahara. — Águas turbulentas irão aparecer em seu caminho, minha querida. Esteja preparada.

— Quão turbulentas, minha senhora? — perguntei após engolir em seco, tentando não parecer mais nervosa do que eu realmente deveria estar. Infelizmente não há como mentira para a deusa do sol, que apenas acariciou minha cabeça com gentileza antes de beijar minha testa.

Foi como se o calor do sol entrasse por todos os poros do meu corpo e me aquecesse com segurança e bondade. O amor que minha tia-avó sentia por mim ficou nítido ali, claro como as águas mais cristalinas que poderiam existir. Era seu desejo de boa sorte, tanto para os acontecimentos que viriam quanto para o Kagura daquela noite, e mais intenso do que nunca, meu sentimento de que não falharia se espalhou por toda a minha pele.

Segurei o leque com firmeza, fechando os olhos por alguns instantes e, quando os abri, estava sozinha novamente. Levei a ponta dos dedos à testa, sorrindo como uma boba.

— Ria-sama, está na hora. — a voz de Mirko soou do outro lado da porta mas, diferente de antes, eu não estava mais nervosa. A tranquilidade de Amaterasu-sama havia me inundado e, naquele momento, eu sentia que poderia conquistar o mundo inteiro.

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Geralmente o Miko Kagura era dançado por mais de uma mulher mas, naquele diz em especial, seria apenas eu.

E devo dizer que foi perfeito.

Assim que desci do palco, com um sorriso nos lábios, mamãe veio me abraçar, dizendo que estava orgulhosa. Em seguida, recebi mais abraços, vindos de tio Enji, tia Rei, Dabi, Fuyumi, Natsuo e, por fim, de Shouto. Abraçar meu primo não tinha comparação: desde crianças éramos melhores amigos, confidenciávamos segredos e sempre estávamos presentes um para o outro.

Agarrei-me a ele quase em desespero quando, finalmente, senti minhas pernas bambas de nervoso, desmoronando no abraço do bicolor. Sim, Shouto tem duas cores no cabelo, sendo metade vermelho – vindo de tio Enji – e metade branco – vindo da tia Rei -, além de possuir heterocromia. Não é uma coisa que o incomoda, na verdade chega a ser bem charmoso.

— Calma, o que houve?

— Desculpe. — respondi a ele, abrindo um sorriso amarelo. — Acho que a coragem que ganhei de Amaterasu-sama finalmente se foi. — soltei uma gargalhada, sendo acompanhada pelo garoto, que simplesmente me pegou no colo em estilo princesa e me ajudou a sentar em uma poltrona estofada perto do palco.

Após isso, comecei a receber cumprimentos das famílias convidadas, agradecendo a todos por terem comparecido e sorrindo da melhor forma que pude. Akashi Haruka, o pai de Seijurou, disse que esperava por nossa colaboração caso os deuses resolvessem não se intrometer ao fazerem o pedido de noivado. Mamãe apenas sorriu amarelo: mesmo que tivesse recebido o pedido de noivado, ela não gostava de Haruka e isso era nítido, fato comprovado ao ver que tanto ela quanto ele não ficavam mais de cinco minutos no mesmo ambiente sem quase se pegarem na porrada.

Amigos de infância que viram inimigos terminam dessa forma.

— Obrigada por vir, Seijurou. — sorri para o ruivo, que retribuiu o sorriso de forma gentil. — Espero que tenha sido de seu agrado.

— Você estava linda, Ria. — tomando minhas mãos, ele as levou aos lábios e me fez corar imediatamente. O herdeiro dos Akashi sabia muito bem como ser um perfeito cavalheiro quando lhe era conveniente, já que na maioria das vezes ele sempre carregava um sorriso sarcástico nos lábios e uma expressão de deboche. — Eu admito, ok? Uma coisa como essas nem mesmo eu posso negar.

— Nossa. Não sei como reagir a isso. — recolhi minhas mãos e soltei uma risadinha, me curvando para agradecê-los quando mamãe o fez. Após repetirem o gesto, saíram de nossa frente e tão logo os Ishida se fizeram presentes.

Ishida Ryuuken era um médico de renome em toda a Tóquio, e sinceramente aquilo me assustava um pouco, já que sua expressão sempre parecia dizer “saia da minha frente ou morra aqui mesmo”. E seu filho, Ishida Uryuu, tinha um olhar muito parecido, mesmo que fosse realmente uma boa pessoa, além de extremamente paciente e completamente apaixonado por Inoue Orihime, uma garota da classe 3C, que infelizmente não tinha o mesmo sentimento por ele de volta por estar apaixonada por Kurosaki Ichigo.

Que por sinal era outro pretendente.

Suspirei e sorri para Uryuu, que sorriu de volta após se curvar em respeito.

— Sabe que não precisa fazer isso, não é? — sussurrei para ele quando nossos pais começaram a conversar, o vendo sorrir com tristeza.

— Está tudo bem, de verdade. — ele respondeu após alguns segundos. Então, assim como os Akashi, os Ishida se curvaram após se despedirem.

Aquela cena se repetiu mais algumas vezes enquanto os pretendentes vinham falar comigo e com mamãe junto às suas famílias. Cumprimentei Kurosaki Ichigo, já que o ruivo não havia ido para a escola essa semana por estar doente; Midorima Shintarou estava sério como sempre, mas mesmo assim me dirigiu um sorriso decente; Lavi Bookman estava animado como sempre e falou mais que a própria língua; e, por fim mas não menos importante, KandaYuu apareceu e trocamos poucas palavras como sempre.

Oi, tudo bem, obrigada por vir. Nossas conversas sempre eram monossilábicas, mas sempre conseguíamos nos entender de forma rápida e sucinta. Suspirei e, após finalizar os cumprimentos, sentei-me novamente, me sentindo mais exausta do que antes. Sons de conversas e música vinham de todos os lados, assim como risadas de crianças e adultos, mas eu realmente não estava prestando atenção nisso.

Era como se as batidas rápidas de meu coração estivessem ecoando em minha cabeça, a ansiedade tomando conta de meu ser inteiro. Algum deus havia gostado? Eles realmente haviam assistido, ou estariam apenas curtindo uma com a nossa cara? Mexi os dedos em inquietação, cutucando minhas unhas em nervosismo real perante aquele momento tão importante.

— Deuses. — expirei o ar que prendia nos pulmões ao ver Shouto se aproximar de mim com dois copos pequenos nas mãos. Sorri para o mesmo e agradeci, estendendo a mão e pegando o objeto com um líquido esbranquiçado dentro. — Sakê? Sabe que não podemos beber, somos menores.

— Sua mãe quem me deu. — meu primo deu de ombros, indiferente. — Vamos lá, Ria. — o vi estender a mão para um brinde, então o acompanhei e, após fazermos os vidros se chocarem em um baixo “tlin”, viramos de uma vez. — Deuses, isso é forte.

— Seu fraco. — zombei, depositando o objeto ao lado de meu corpo. Abri a boca para falar, mas me calei logo em seguida ao ver que as conversas iam morrendo aos poucos até que tudo ficou no mais absoluto silêncio.

Vi Shouto se virar para trás e tão logo me coloquei de pé ao ver que as pessoas que estavam ao meu redor abriam caminho e se curvavam perante um homem alto e loiro, com olhos carmim e um quimono que caía por um lado de seu corpo, revelando seu torso definido. Engoli em seco.

— Todoroki Ria? — o homem anunciou quando se aproximou de mim, então caminhei até ficar de frente para ele, curvando-me em respeito pela divindade que ali estava. — Sou Bishamonten, e estou aqui para te tornar a minha esposa.

TODOROKI, Ria - História Parte II

Naquela semana eu havia ido para a América com minha mãe.

Depois do anúncio feito por Bishamonten-sama, que me escolhera como noiva, o clã inteiro comemorou a notícia e eu fui tirada da escola, uma vez que deveria me dedicar em cem por cento do tempo ao meu marido quando tudo fosse oficializado. Então, uma semana antes de me casar, mamãe resolveu viajar para a filial americana da empresa e me arrastou junto para poder esfriar a cabeça.

— Vai ser bom mudar os ares um pouco, querida. — havia dito com seu tom mais gentil que conseguiu, sempre afirmando que quando voltássemos tudo estaria pronto para a cerimônia. Suspirei enquanto caminhava pelos corredores do prédio em Nova York, conversando com alguns empregados aqui e ali.

Estava entediada.

— Avise minha mãe, quando ela sair da reunião, que saí para caminhar um pouco. — comentei com a secretária, que sorriu e afirmou com a cabeça. Sorri de volta e, a passadas rápidas (e com tio Enji em minha cola), encaminhei-me para as portas giratórias, passando por elas e tão logo saindo do prédio, sentindo o sol bater em meu rosto de maneira tão diferente do sol de Amaterasu-sama.

Esse parecia que desejava me fritar.

Dei de ombros e comecei a caminhar, afinal era a primeira vez que viajava com mamãe para a América e havia muito do Queens para conhecer. Hari geralmente não controlava onde eu poderia ir quando saia de casa, mas havia apenas uma única regra que deveria ser obedecida em toda e qualquer hipótese: jamais chegar perto de rios, lagos ou do mar. Ela dizia que tinha medo de Susanoo-sama me levar embora, mas ei! Estávamos em Nova York, muito longe do território dos deuses japoneses, então o que poderia dar errado?

Dei de ombros, mais tarde pediria para meu tio me levar para ver o mar. Continuei a caminhar, observando tudo que podia. Compramos donuts, cachorro quente, paramos para comer bolo, bater algumas fotos (as quais enviei para Shouto e Katsuki) e pedir informação, afinal nos perdemos. Devo confessar que me diverti com tio Enji, já que geralmente ele é o sério do rolê quase nunca o vejo rir.

Acho que foi a primeira vez.

Caminhamos um pouco mais até avistar um antiquário, e devo confessar que senti uma estranha sensação ao passar pela vitrine, como se algo ali dentro estivesse me chamando com todo seu poder. Antes que desse por mim, estava abrindo a porta e adentrando o lugar, observando as prateleiras com vários objetos antigos, desde aqueles telefones com rodinhas de discagem até aqueles tocadores de vinil.

Caminhei por entre as prateleiras com Enji logo atrás de mim, olhos atentos àquele lugar suspeito. Não vou mentir, pois apesar de ser fã desse tipo de loja (afinal eu era uma adepta à moda antiga) aquela em específico me dava calafrios que nunca pensei que sentiria na vida. Passei por uma estante repleta de bailarinas de porcelana, carrosséis com unicórnios que giram e tocam música quando dá corda e bonecas de pano que lembravam muito a Annabelle.

— Posso ajudá-los? — saltei de susto para trás de meu tio quando ouvi a voz feminina tão perto de mim, me pegando de surpresa e com a guarda baixa. Enji colocou a mão à minha frente em reflexo, abaixando-a e ajeitando a gravata após perceber que não se tratava de uma ameaça e sim de uma senhorinha, que devia ter seus oitenta anos.

Respirei fundo pelo nariz e soltei pela boca, sorrindo e dizendo que estava apenas dando uma olhada, então ela começou a nos acompanhar pela loja, falando sobre os produtos que possuía. Pelo tom de voz, acredito que o orgulho que sentia por ter coisas tão antigas ali era demasiado grande já que parecia completamente animada sobre tudo que me apresentava.

— Você não é daqui, não é querida? — Elizabeth perguntou após alguns minutos que gastei dentro daquele antiquário. Ela havia se apresentado e, apesar do meu inglês ser bom, algumas palavras ainda se enrolavam em minha língua e o nome era um deles. Erizabesu. — Da América, eu digo. Temos muitos nipo-descendentes por aqui, mas acredito que você não faça parte desse grupo, estou certa?

— Não, Elizabeth-san. — respondi enquanto ela abria a porta que dava para uma varanda com vista para o mar. O cheiro de maresia me agradou imensamente e, por alguma razão, a sensação de nostalgia e lar se apossou de mim.

Conversamos por algum tempo e confesso que foi imensamente divertido. Muitos idosos no Japão vivem sozinhos, sem ter alguém para conversar ou trocar alguma ideia então as pracinhas com a terceira idade jogando Shogi sempre bombam. Pelo que Elizabeth havia me contado, ela veio da Inglaterra aos cinco anos junto aos pais para fugir do núcleo da guerra, o que me lembrava Maa-san e Jung-san, o casal de velhinhos que eu sempre encontrava na praça perto da escola.

A mulher à minha frente contou, ainda, que teve cinco filhos com um homem que não amava, mas que casou para poder sair de casa depois que sua mãe morreu e seu pai alcóolatra começou a violentá-la. Infelizmente não foi muito diferente com o marido, que a agredia sempre que voltava bêbado para casa e, aos vinte e oito anos, ficou cega de um olho depois de levar uma paulada na cabeça. Então se divorciou e vivia sozinha com os filhos, tendo aquela loja como seu sustento.

Engoli em seco após tanta informação, dando graças aos deuses de Tamahagara que a minha vida era abençoada demais. Não me importava ter que casar com um deus, ou ter minha liberdade roubada por isso: eu sempre tive um teto, comida quente e recebi muito amor de minha família.

— Oh querida, não chore. — a idosa passou os polegares por minhas bochechas, e foi somente ai que me dei conta de que estava chorando. Era muito triste aquilo, ela estava sozinha. — Não me sinto mais sozinha, sabe? Sempre recebo visitas das minhas amigas de bingo.

Concordei com a cabeça e, depois de me acalmar, senti a mão de tio Enji em meus ombros.

— Andrezza ligou, sua mãe sai da reunião em uma hora. Precisamos voltar. — a voz grossa dele soava gentil, e a leve pressão que fez em forma de consolo me confortou de forma inesperada. Limpei os olhos com as costas das mãos e assenti, ficando de pé e me preparando para partir.

— Muito obrigada, Elizabeth-san. — sorri com gentileza, segurando as mãos da idosa com cuidado. — Pelo chá, pela companhia, pelas histórias! Foi incrível.

— Sou eu quem devo agradecer pela companhia, meu bem. — ela sorriu com alegria. — Poderia pedir um favor a vocês dois? Estou velha, não posso caminhar muito, sabem?

Vi tio Enji abrir a boca, provavelmente para recusar, então resolvi ser mais rápida e concordei com a cabeça, vendo o homem suspirar e coçar a nuca em nervosismo. Ele odiava esse tipo de situação, mas aquela mulher havia sido tão legal que não conseguia recusar.

— Preciso que levem aquela caixa ali... — começou enquanto apontava para uma caixa branca de, pelo menos, meio metro de altura. — Até uma lojinha perto da praia, chamada Sea Story. Creio que um homem como você consiga carregá-la, certo querido? — Elizabeth-san perguntou ao meu tio, que após soltar um suspiro concordou com a cabeça. A mulher sorriu. — Ótimo! É uma missão especial, meu bem. Conto com você.

Novamente concordei com a cabeça e, após tio Enji pegar a caixa (que me pareceu um pouco pesada devido à careta que fez), saímos do antiquário. As instruções dadas pela idosa não eram difíceis de serem seguidas: não abrir a caixa em hipótese alguma, seguir exatamente pelo caminho indicado e não falar com ninguém que perguntasse a respeito do conteúdo do pacote.

Simples e básico.

Mas que seria muito mais complicado do que eu imaginava.

Não exatamente pelo fato de que teríamos que encontrar a lojinha em questão, mas na metade do caminho vi a postura de meu tio mudar, percebendo que ele ficara mais alerta do que estava antes. Ti Enji apertou a caixa contra o peito e tomou minha mão com rapidez, acelerando o passo enquanto franzia as sobrancelhas até chegarmos no espaço aberto do calçadão à beira mar, conseguindo ver a lojinha mencionada apenas a alguns metros de nós.

— Estamos sendo seguidos. — soltou em baixa voz, parando bruscamente quando viu algo à frente. Voltei meus olhos na direção que ele olhava e reparei que havia uma pessoa ali e, assim como titio havia notado, era óbvio que não se tratava alguém comum. — Merda.

A cabeça do mais velho virava de um lado para outro ao notar que sim, estávamos cercados. Quatro pessoas carregando talismãs relacionados ao Dragão Azul denunciavam que os presentes faziam parte do clã Setsuno e aquilo era muito ruim.

Haviamcinco famílias que eram consideradas sagradas entre os membros do Conselho dos Deuses Japoneses: os Todoroki, os Asami, os Akashi, os Kanda e os Setsuno, sendo esta a ordem de importância, status e poder. Setsuno Haru nunca conseguiu superar ser colocado em último na fila de prioridade dos deuses e isso mexeu com seu psicológico, piorando depois de aceitar o pacto com o Dragão Azul.

Cada uma dessas famílias era protegida por um dragão sagrado desde os tempos mitológicos, uma vez que por serem extremamente importantes seus líderes eram preciosos demais para os divinos. Azul para os Setsuno, Vemelho para os Akashi, Verde para os Kanda, Marrom para os Asami e Dourado para os Todoroki.

— Sabem o que fazer. — a pessoa que estava em nossa frente falou, puxando uma kunai de dentro da botina quando levantou o pé esquerdo. Como ela conseguiu guardar aquilo ali sem se machucar?

As pessoas ao nosso redor começaram a correr no momento em que tio Enji me deu a caixa para segurar e criou fogo com as mãos, anunciando todo o poder do descendente do deus do fogo ali. Entrando em guarda, os nossos agressores pareceram hesitar durante alguns instantes antes de, finalmente, atacarem.

— Deus do fogo, meu pai. Empreste-me seu poder. — a voz grossa do homem ao meu lado soou alta e clara, me fazendo praticamente colar em suas costas e fechar os olhos, apertando o pacote contra mim e agarrando com força o terno preto que ele usava.

O calor que comecei a sentir me fez abrir somente um pouco o olho esquerdo e notei que estávamos no centro de um círculo de chamas. Dos manipuladores de fogo, Enji era o melhor de todo o clã, e isso fazia o sentimento de segurança me inundar: mesmo que não fosse a pessoa mais sociável do clã Todoroki, quando o assunto era me manter segura e viva meu tio fazia o possível e o impossível. E, naquele momento, era mais do que notável que sim, me levar de volta era a prioridade.

— Fique perto, Ria. — ordenou e eu me apertei mais contra suas costas, engolindo em seco. — Contatei Euyung para vir, então ele deve chegar logo. Vou criar um corredor de chamas, vá por ele. Vou manter as coisas aqui.

— Tio Enji? — me separei dele rapidamente e o encarei rapidamente, piscando algumas vezes em dúvida se ouvi direito. — Não, não posso...

— Não questione, Ria! Essas pessoas... — a fala de Enji foi interrompida quando ele se jogou em mim, me atirando ao chão e me protegendo de algo. — Droga...

Congelada e sem conseguir me mexer por conta do peso em cima do meu corpo, automaticamente levei minhas mãos até as costas do homem, sentindo algo molhado e quente em minha pele. Trêmula, vi que era sangue quando coloquei em meu campo de visão.

Não, não, não! Tio Enji não podia morrer!

— Não matem a garota. O senhor Ichijouji a quer viva, já que é uma híbrida. — quando se aproximou de nós, pude ver que se tratava de uma garota com mais ou menos a minha idade e, a julgar pelas feições, era uma mestiça. — Sangue de Susanoo e Poseidon, hã? Uma privilegiada, filhotinho de Takamagahara.

Os dedos dela eram longos e acariciaram minha face com leveza. Apertei meu tio contra mim, com medo de que fosse tirado dali da pior forma possível. Não, mil vezes não, Shouto choraria caso o pai morresse, Fuyumi ficaria triste e deuses, tia Rei ficaria sem chão. Fechei os olhos em medo e desespero, rezando para Amaterasu-sama que mandasse ajuda, qualquer uma que fosse serviria.

— O Dragão Dourado vai amaldiçoar vocês. — rosnei quando abri os olhos e vi que, de forma bruta, tio Enji foi tirado de cima de mim e jogado para o lado. Agarrei-me, então, ao pacote como se minha vida dependesse daquilo, ainda deitada no chão, mas logo sendo colocada de pé contra minha vontade.

Bem, qualquer um faria aquele movimento se fosse puxado pelo cabelo.

— O que há nesta caixa, princesa de Takamagahara? — a mulher perguntou e eu franzi a testa, me apertando ainda mais contra o objeto. Neguei com a cabeça, fazendo-a rir. — Jogue fora.

— Não! É uma entrega, não posso jogar fora! — falei enquanto dava um passo para trás, abaixando no chão e protegendo a caixa com meu corpo. — Eu vou com vocês, se é o que quer. Mas isso precisa ser entregue ao dono, e deixem meu tio em paz.

— Paz? O veneno nas veias de Todoroki Enji deve estar agindo no momento. Acha que ele vai sobreviver, R-i-a-s-a-m-a? — proferiu, fazendo meu sangue gelar. Levantei os olhos já marejados na direção de meu tio e consegui, finalmente, perceber que na base de seu pescoço linhas arroxeadas começavam a aparecer.

Senti como se o tempo estivesse desacelerando, mil coisas passando por minha cabeça. Não lutei quando me colocaram de pé, muito menos quando tiraram a caixa de minhas mãos e jogaram em um canto qualquer. Da mesma forma, não vi quando uma flecha de um material que não reconheci cravou no braço de quem me segurava e, graças as pernas bambas, eu caí novamente.

Tudo parecia um borrão, devo confessar. Pessoas entraram em meu campo de visão, outras correram para socorrer tio Enji, inclusive Euyung, que chegou junto com mamãe. A vi ditar ordens para os três seguranças que a acompanhavam, mas suas palavras chegavam distorcidas até mim: tudo que conseguia pensar era que alguém precisava salvar meu tio, alguém precisava tirá-lo dali e rápido!

— Irresponsabilidade! — o tom que não pertencia a alguém que conhecia chegou em meus ouvidos, me puxando dos pensamentos aleatórios que tinha no momento e então voltei os olhos na direção de Hari. Havia um homem com ela, e mamãe não parecia nem um pouco feliz. — Hari, eu lhe avisei sobre isso, não avisei?

— E acha que estou feliz? — mamãe praticamente berrou a plenos pulmões. Era a primeira vez que a via perder a compostura daquela forma. Lágrimas desciam por suas bochechas vermelhas, se de raiva ou vergonha eu não sabia dizer: eram emoções demais para eu lidar no momento. — Acha mesmo que eu não queria deixar que minha filha soubesse quem é pai dela? Mas temos tradições, que precisam ser seguidas!

— Pai? — perguntei, elevando a voz quando escutei essa palavra. Por alguma razão desconhecida, ao escutar isso, meu cérebro entrou em modo operandis, e mais rápido do que imaginei me pus de pé para correr até a minha progenitora. — Mamãe, o que...

— Não é seu pai. — respondeu de forma seca enquanto segurava minha cintura e me ajudava a me manter em pé, ficando um pouco à frente de meu corpo.

Encarei o homem a minha frente e percebi que haviam escamas em sua pele, que normalmente pessoas normais não teriam, além de seus olhos esquisitos: as escleras negras contrastavam com as íris verdes, luminosas como um farol. Pisquei algumas vezes para me certificar que não estava vendo coisas. E não, não estava.

Virei a cabeça para os lados para prestar atenção em tudo que estava acontecendo. Pessoas que eu nunca vira na vida estavam ali, rendendo aqueles que atacaram outrora, cuidando de tio Enji e recolhendo o pacote que fora arremessado para o lado. Aparentemente estava intacto, e aquilo era bom já que o dono não ficaria feliz em saber que seu pertence fora danificado por uma circunstância qualquer.

Imaginei não serem humanos, claro, devido ao tom diferenciado da pele de alguns, já que seres humanos não são azulados. Respirei fundo pelo nariz e soltei pela boca, agarrando-me à minha mãe quando um daqueles seres se aproximou com a embalagem, entregando-a ao homem a minha frente enquanto dizia que a entrega estava intacta.

— Graças aos deuses. Se o presente de lady Anfitrite quebrasse ou algo do tipo, meu lorde ficaria furioso. — ao vê-lo abrir a caixa resolvi dar uma espiada apenas por pura curiosidade, vendo que se tratava de um arco feito de algum material semelhante a...

— Isso é oricalco? — perguntei, inclinando o corpo na direção daquele ser tão diferente e o observando com curiosidade a arma dentro da caixa. — Por isso estava pesado!

— Sim, isso mesmo! — ele respondeu, me lançando um sorriso acalorado. — Como esperado da filha de nosso senhor.

Tombei a cabeça de lado, confusa com aquela informação.

— Perdão? — perguntei. Com o indicador, o homem à minha frente apontou para cima de minha cabeça, então mais que depressa ergui os olhos para ver um tridente pairar acima de mim, girando vagarosamente e brilhando em verde como as luzes usadas nos shows do Vocaloid.

Olhei para minha mãe, que apenas suspirou com pesar. Alguns dos seres azuis que estavam conosco se curvaram para mim em sinal de respeito enquanto meu cérebro tentava entender o que estava acontecendo ali.

— Mamãe?

— Ave Todoroki Ria! — o homem perto de mim anunciou antes de se ajoelhar. — Filha de Poseidon, deus dos mares, senhor dos oceanos e pai dos cavalos.



Fortune doesn't favor fools.
(C) Ross



Todoroki Ria

First of her name;
Poseidon's daughter;
Bishamonten's Bride;
Susanoo's grandaughter;
∆ LYL - FG
Todoroki Ria
Todoroki Ria
Filhos de Poseidon

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